Poema Cinza

 Era um dia, outro dia de um mês de Maio 
Pássaros faziam as pazes com o silêncio 
Ninguém à janela 
Apenas uma senhora estendendo só e calada 
Roupas sem cor 
Ante o preto da sobriedade 
E o branco de uma saudade contida 
Um cinza constante 

Certamente havia um cais naquela tristeza 
Não estava esquecida a noite vazia 
Cadeiras espalhadas 
Jornais amassados e recortados nas manchetes 
Tudo cheirava à poeira da rotina 

O ar estava circunflexo 
A cor desbotara gota a gota 
Se o tempo inteiro não passasse 
Não haveria ninguém,  não haveria 
E sobre a mesa uma pobre chávena pequenina 
Junto a rascunhos e borrões de uma poesia

Se o mundo falasse 
Tivesse ao menos lábios pequeninos
Ali nada diria 
Nada faria 
Tudo é um desespero brando 
A meia luz
Um poema cinza 


Eustáquio ASy. 

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